Em Dezembro de 1991, tinha eu quarenta e oito anos, dei uma entrevista à revista «Marie Claire», que organizara um número especial sob o título «O Charme das Mulheres de 50 Anos». Lendo-a, quinze anos depois, o que me surpreende é o meu optimismo. É verdade que já então descobrira não ser imortal, o primeiro sinal de envelhecimento, ou, se preferirem, de sabedoria, mas, à época, declarava que ter cinquenta anos era a melhor coisa do mundo. A minha actual posição é mais complexa. Se há coisas boas no envelhecimento, as más ultrapassam-nas e de longe. Não querendo ser fúnebre, começo pelas primeiras. À cabeça, vem a evidência de dispor hoje de mais dinheiro do que em jovem, quando tinha filhos a meu cargo, um benefício atenuado pelo facto de o prazer de fazer compras ter desaparecido. Subi até ao topo da carreira universitária, o que me dá conforto moral. Finalmente, uma vez que deixei de prestar atenção ao que os outros pensam de mim, atrevo-me a deixar vir ao de cima as minhas excentricidades.
Seja como for, o prato negativo da balança é mais pesado. Começo pela saúde. Depois dos sessenta anos, raro é o dia em que não temos uma maleita. E não estou a falar de doenças graves, mas de pequenas aflições, uma subida da tensão arterial, uma dor de cabeça, uma lombalgia. Ligado ao menor vigor físico, está a facilidade com que nos cansamos. Dantes, conseguia trabalhar na Biblioteca Nacional das dez da manhã até às sete da tarde, isto é, nove horas seguidas; hoje, apenas consigo trabalhar seis. Reconheço que ali o tempo é intensivo, sem possibilidade de interrupções para conversas nem intervalos para café, mas a verdade é ter o meu dia de trabalho ficado com menos três horas. Dantes, qualquer roupa me servia. Agora, só encontro trajos desenhados para anoréxicas. Uma vez que é na cintura que a idade mais partidas nos prega, comprar um par de calças tornou-se numa tarefa morosa.
Outro aspecto sobre qual a idade tem efeitos devastadores diz respeito às novas tecnologias. Levei anos a aprender a mudar um fusível, a lidar com uma panela de pressão e a programar um micro-ondas. Ainda consegui – momento de glória – passar da máquina de escrever para o computador, mas a evolução parou aqui. Por saber que o tempo gasto a ler instruções não compensaria a utilidade ou o prazer que deles retiraria, já não dei o salto para o telemóvel, muito menos para o ipod. Fiz um balanço custo-benefício, tendo concluído que o custo, de aprender, seria maior do que o benefício, uma vez que este nunca poderia exceder uns anos.
Há ainda, e isto é decisivo, os amigos que nos deixam - três morreram nos últimos anos - e os medos: o medo de que a reforma não chegue, o medo de perder a razão, o medo de morrer numa cama de hospital. Tendo em conta o que Henry James chamou «a imaginação para o desastre», poderia passar horas a enumerá-los. Não o vou fazer, embora pense que é o momento para recordar o refrão dos Beatles, «Will you still need me/ Will you still feed me?», da canção intitulada «When I´m Sixty Four». No fundo, o pânico maior é o de ficarmos sozinhos ou, pior, de passar a ser dependente de outros. Envelhecer é também saber isto.
Como o é ter passado pela provação de ter assistido à morte dos pais. No ano passado, depois de ter sofrido, durante onze anos, da doença de Alzheimer, a minha mãe morreu. No início da doença, nem eu nem os meus irmãos nos apercebemos do que se passava. Desde sempre autoritária, este traço da sua personalidade viera ao de cima, mas não lhe prestámos atenção. Pouco a pouco, todavia, comecei a notar nela um ranger de espírito inédito, mas consegui convencer-me de que, no fundo, era a mãe de sempre, simplesmente mais velha. Enganava-me, como se enganaria a psiquiatra que a viu, num consultório onde a levei na companhia de uma das minhas irmãs. Depois de uma breve conversa, durante a qual a minha mãe se portou exemplarmente, a médica informou-nos que ela estava óptima, podendo nós – era uma das minhas preocupações – deixá-la sair sozinha. O diagnóstico não me convenceu. Continuei a suspeitar que, no seu cérebro, se passava qualquer coisa de esquisito.
O humor da minha mãe variava a uma rapidez alucinante. Um dia, em que a vi pior, levei-a a um neurologista recomendado por um colega. Depois de, com uma luzinha em punho, ter espreitado para dentro dos seus olhos, disse-me que a deveria submeter a uns testes feitos por uma psicóloga que com ele trabalhava. O relatório confirmou aquilo de que ele suspeitara: era provável, e frisou bem esta palavra, provável, que a minha mãe sofresse de Alzheimer. Depois de nos ter prevenido que a doença não era dolorosa para o próprio, advertiu-nos ser a mesma penosa para os membros da família. Nada sabendo sobre a matéria, virei-me para o irmão, que me acompanhara, dizendo-lhe em tom ligeiro: «Deve ser a arterio-esclorose dos ricos».
O pior viria depois. Tudo se passou com altos e baixos, conseguindo ela manter, mesmo sob a doença, a sua personalidade. Esta mistura, entre traços do seu temperamento e comportamentos inexplicáveis, confundia-me. Era como se ela estivesse a perder a sua identidade, mas apenas de vez em quando. Percebi então que não se acorda louco, mas que se vai enlouquecendo. Sem memória, sabia-o, uma pessoa deixa de o ser. É, aliás, significativo que a maior parte dos animais a não possuam, como significativo é que as crianças de tenra idade apenas tenham uma memória fotográfica. Como sabemos, só mais tarde surge a memória cronológica, isto é, a possibilidade de se reconstruir o passado sem ser apenas com base numa sucessão de imagens. Até a minha mãe adoecer, isto era apenas uma construção intelectual. A dor de a ver enlouquecer ensinou-me a olhar os factos a outra luz. Sabia agora que a minha mãe era e não era ela: tão depressa me falava, com lucidez, de coisas que se tinham passado, como sentia raivas para mim inexplicáveis. E assim se foram passando os dias. Mal, porque, a partir de então, nunca mais o telefone tocou sem que, de início, eu pensasse ser ela, e, mais tarde, alguém a chamar-me em seu nome. Continuei a levá-la ao médico, até ele me dizer que pouco havia a fazer.
Há sempre, nas doenças prolongadas de um pai ou de uma mãe, qualquer coisa de trágico. Desde logo, porque nos custa vê-los alquebrados. Depois, e isto é novo, porque deixámos de saber como actuar diante das novas tecnologias. A certa altura, percebi que o «encarniçamento terapêutico», como é designado o uso de técnicas médicas para além do limite «razoável», não era praticado tanto em função do bem-estar dos próprios, mas do nosso conforto espiritual. Nesta área, é difícil estabelecer fronteiras. Mesmo nas condições em que a minha mãe se encontrava, era evidente, até pela maneira como a vi recuperar de uma operação ao cérebro, que não desejava morrer. Ao contrário do meu pai, lutava contra o «medonho muro», como Cesário Verde designou a morte. Quando foi operada, quase pensei que o melhor, para nós, e para ela, era não acordar da anestesia. Mas quem marca a hora fatal? A dúvida persistiu.
Um dos aspectos mais terríveis na evolução destes doentes é a observação de que, ao enlouquecerem, o não fazem de um dia para outro. A personalidade da minha mãe mantinha-se por debaixo da deterioração mental. Em vez de diminuir, a sua vontade de poder até aumentou. Era capaz de obrigar os filhos a visitá-la com uma assiduidade que, de sua livre vontade, o não fariam. Reparei que há uma diferença quando são vários filhos a tratar de um progenitor ou apenas um. Como o neurologista que a diagnosticou, me prevenira, a doença de Alzheimer é dramática no que diz respeito à coesão das famílias. Porque nem todos os descendentes poderão estar de acordo quanto ao rumo a seguir.
Tão longa foi a doença da minha mãe que tive tempo para reflectir sobre a rivalidade fraternal. Não sei se o fenómeno existe em todas as famílias, mas os psicólogos dizem que sim. E acrescentam que, ao temperamento, não é indiferente a ordem do nascimento, ou seja, que o facto de se ser o mais velho, o do meio ou o mais novo determina certas características. Muito do que se passou no interior da tragédia familiar que vivi deve-se, em grande medida, à competição. Era como se cada um de nós tivesse que provar que amava melhor a nossa mãe ou que ela teria preferidos e preteridos. Isto pode parecer estranho, mas o facto radica em camadas profundas da nossa alma. Basta pensar no início do Génesis, quando se relata a morte de Abel por Caim por este julgar que o seu Deus-Pai gostava mais do irmão do que dele. Devo dizer que, para estes debates tive sempre pouca paciência. O meu problema era o da culpa individual, não o do meu lugar no coração da minha mãe.
Sentindo-nos culpados, qualquer discussão acerca do futuro da nossa mãe – sobretudo após o momento em que a demência foi notória – envolvia sentimentos insusceptíveis de virem à luz do dia. O sentimento mais fundo que qualquer filho tem, ao ver um pai ou uma mãe num lar, é o da culpa. No meu caso, isto deveria ter sido atenuado pelo facto de sido ela a escolher, quando lúcida – ou eu assim o pensava – a troca do andar onde vivia por um lar de freiras a cinco minutos de sua casa. Mesmo assim, olhei a sua institucionalização com horror. Nunca, desde que ela transpôs a porta do palacete pertencente à Venerável Ordem Terceira de S. Francisco, adormeci sem me sentir angustiada. Quer o desejasse quer não, era assim que eu reagia.
Um ano e depois de ela ter adoecido, fui-me abaixo. Durante dois anos, vivi como uma sonâmbula. Não me apetecia comer, nem, o que era mais estranho, trabalhar. O facto foi tão inesperado que me é difícil descrever aquilo por que passei. Aos 53 anos, sentia-me esgotada. Vi alguns médicos, mas, resistindo ao conselho de amigos, que me afirmavam carecer eu de tratamento especializado, não quis ir a um psiquiatra, refugiando-me no que me dizia o meu ginecologista, para quem tudo estaria relacionada com as alterações a ocorrer no meu corpo. Mas eu não conseguia admitir que as hormonas – ou a ausência delas – pudessem a alterar o meu humor. Em vez de pôr como hipótese causal as modificações físicas, passei a atribuir a minha apatia à doença da minha mãe e, indirectamente, ao medo de que eu própria estivesse a enlouquecer.
Até que fui forçada a aceitar que um elemento químico, o estrogéneo, ou antes, a sua falta, podia ter efeito no meu estado. Mas nunca me convenci totalmente. Decidi apenas que teria de fazer um esforço para viver a segunda metade da minha vida com o mínimo de dignidade. Às vezes, quando estava melhor, lia poesia. Acabei por saber de cor, o poema de Yeats, «When You Are Old». Mas o meu corpo não me obedecia. Nada me alegrava, desconfiava dos amigos, andava insegura. O facto de ter sido bonita desde muito nova agravou a situação. O meu corpo já não era tão belo como o que possuíra aos vinte anos. Em vez de considerar o facto normal, olhei-o como um pesadelo.
Um deus qualquer decidiu punir a minha futilidade. Passei a sofrer de ininterruptas dores de cabeça. Tão intoleráveis eram que tentei convencer um eminente neurocirurgião a operar-me, por ter, pensava eu, um tumor no cérebro. Este não só se recusou a aceitar a sugestão, como me deu o endereço de uma especialista, a qual, apesar de excelente clínica, nada conseguiu. Depositei a minha fé nos medicamentos, mas nem umas injecções caríssimas, e que, por esse facto, me convenceram de que surtiriam efeito, me aliviaram. Conclui que teria de viver assim ou, na pior das hipóteses, de me suicidar. Em 2005, as dores desapareceram: tão subitamente quanto tinham aparecido. Pela primeira vez na vida, admiti que talvez pudessem existir doenças psico-somáticas.
Sabia que estava mais velha – o que implicava menos capacidade de trabalho e mais rugas na cara – mas o facto de ter duas netas deu-me um prazer inesperado. Talvez por ter sido mãe tão cedo, a perspectiva de voltar a pegar em bebés não me agradava. Mas quando nasceu a minha neta mais velha – a que tem agora onze anos – o meu espírito conseguiu repousar. As patetices dos bebés nunca me tinham divertido. Durante os anos em que assisti ao eclipse da minha mãe, fez-me bem divertir-me com as minhas duas netas.
Para além delas, outra coisa me dava prazer: o trabalho. Neste domínio, contudo, as coisas eram mais complicadas, porque só sou capaz de trabalhar bem desde que calma. Uma obsessiva, tenho de ter a cabeça vazia de quaisquer preocupações para pensar. Escrever exige uma concentração que nem sempre me era possível obter. Podia ter abdicado, mas, melhor do que ninguém, sabia o que isso significaria para o meu já debilitado estado psíquico. Até pela minha mãe, tinha de continuar a minha vida. Por isso me esforcei por manter a rotina. Hoje, constato que, durante estes anos tenebrosos, publiquei vários livros, de ensaios a biografias, de colectâneas a prefácios, de volumes eruditos à coordenação de obras de referência. Se me perguntarem se isso foi fácil, a resposta é negativa; se me perguntarem se me salvou, direi que foi esse o caso.
Sei que, por a vida se estar a prolongar para além de limites impensáveis, haverá cada vez mais gente a sofrer como a minha mãe sofreu e a passar por aquilo que eu passei. Há duzentos anos, morria-se entre os 30 e os 40 anos e, no caso das mulheres, antes, uma vez que uma percentagem elevada de grávidas não aguentava os partos. Existia um ciclo estabelecido: mortos os antecessores, os casais dedicavam-se à educação dos filhos. Esta situação tem vindo a alterar-se. Actualmente, os indivíduos na casa dos sessenta anos – é o meu caso - têm de cuidar, em simultâneo, de pais em processo de fragilidade acelerada, de filhos atravessando momentos difíceis e até de netos irrequietos. Não tenho conselhos a dar. Ou antes: tenho, o qual apenas diz respeito a nós, mulheres. A tentativa de conciliar várias tarefas, como filhas, mães e, nalguns casos, avós – para não falar já do trabalho - pode acabar por ser destrutiva, uma vez que o sentido do dever nos dilacera o coração. Dado que o mundo não vai mudar, só vejo um remédio: envolver os maridos no cuidado dos velhos. Deixados a si próprios, os homens pretenderão libertar-se deste compromisso. Finalmente, quando imersas no tratamento dos pais e, às vezes, dos sogros, as mulheres têm de admitir que cuidar de si é legítimo. Um ser emocionalmente arruinado não ajuda quem quer que seja. É esta a mensagem que gostaria de transmitir.
Maria Filomena Mónica
Comunicação proferida na Sessão Temática "Envelhecimento - Novas perspectivas de intervenção", realizada na Biblioteca Municipal de Oeiras em 18 de Outubro de 2007 e organizado pelo Departamento de Acção Social da Câmara Mnicipal de Oeiras.
















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