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Os idosos no futuro
A verdade do tempo histórico se encarregará de caracterizar os idosos de então e mostrar o seu percurso ao longo do século XXI. Por agora, juntamos alguns dados científicos sobre tendências relativas ao desenvolvimento futuro do ser idoso, com intenções políticas e expectativas individuais, mais ou menos optimistas, sobre o resultado do processo de envelhecimento, num horizonte de algumas décadas.

Em 2002 a OMS definiu como meta para a primeira década do século XXI, o Envelhecimento Activo (WHO, 2002). Este conceito define-se como um processo de optimização de oportunidades para a saúde, participação e segurança, no sentido de aumentar a qualidade de vida durante o envelhecimento. A receita básica para os idosos no futuro poderá então ser (1) um estilo de vida saudável que ajuda a manutenção de altos padrões de saúde; (2) no caso dos países da União Europeia, o privilégio de vivermos em segurança e, (3) talvez a chave do sucesso, a participação social, nas suas diversas formas que vão desde trocas interpessoais significativas, até ao exercício dos direitos e deveres de cidadania, estendendo a participação às estruturas e associações comunitárias, em prol do bem comum.

Tendo este conceito de envelhecimento activo como pano de fundo, abordaremos a questão dos idosos no futuro, numa perspectiva de saúde e numa perspectiva psicossocial, enquanto áreas chave do processo de envelhecimento. Na saúde, o debate coloca-se actualmente entre duas hipóteses opostas sobre a evolução da saúde e da incapacidade ao longo do processo de envelhecimento, a primeira refere que o aumento de pessoas idosas será acompanhado por uma compressão da morbilidade, em que a doença e a incapacidade serão adiadas para idades cada vez mais tardias (Fries, 1980), a segunda hipótese, de expansão da morbilidade, considera que as pessoas viverão mais, mas com maior sobrecarga de doenças e incapacidade (Kramer, 1980). Os dados científicos não mostram ainda uma tendência clara. Ainda que mais saudáveis, as pessoas parecem ter expectativas cada vez maiores sobre a sua condição de saúde e esperam uma intervenção médico-farmacológica mais eficaz. No futuro, se a prevenção impuser mudanças no estilo de vida, desleixado e sedentário de hoje, os idosos serão mais saudáveis. Continuarão as investigações na área do aporte calórico e sua relação com a longevidade e as doenças (comer menos para viver mais), haverá avanço na terapia e engenharia genética, para contrariar as mutações do ADN, ou desligar" o mecanismo de apoptosis (em que a célula activamente se suicida), haverá avanço farmacológico, por exemplo, na área da doença de Alzheimer, sendo que tudo isto levará ainda muitos anos a ser conseguido e testado (para uma revisão Kirkwood, 1999).

Há falta do elixir da longa vida, aposte-se forte na prevenção e sobretudo na melhoria contínua e significativa das condições sócio-económicas das populações.
Na perspectiva psicossocial, partimos da discussão sobre a reforma que está na agenda política dos países da União Europeia. Em poucas décadas, tornamos o direito à pensão de reforma universal, fizemos reformas antecipadas e recentemente adiamos a idade de reforma. Podemos imaginar que, num futuro próximo, a falência dos sistemas de segurança social e os condicionalismos desenvolvimentistas dos países, continuem a forçar o trabalho sénior para idades cada vez mais avançadas, sobretudo se formos capazes de comprimir a morbilidade.

Em Portugal, comparando o censo populacional de 1992 com o de 2002  verifica-se que houve um acréscimo de pessoas com mais de 65 anos no mercado de trabalho, principalmente no sector feminino e embora estes dados devam ser interpretados com muita cautela, porque podem existir outras variáveis que concorram para este fenómeno, o que é facto é que esta tendência também se observa noutros países (e.g. Henretta,  2001).

As repercussões psicossociais na saúde e satisfação de vida das pessoas idosas, deste marcador social de entrada na velhice que é a reforma, são difíceis de prever. Podemos imaginar que as pessoas se mantêm mais saudáveis e integradas, esconjurando a solidão e o estigma do ser velho, para fases muito tardias e próximas da morte, ou pelo contrário que as pessoas arrastam penosamente nos seus se trabalhos, porque isso é essencial à sua sobrevivência económica, mas o fazem sem lucros psicossociais claros.

A baixíssima qualificação dos trabalhadores portugueses que demorará anos a inverter, não torna previsível que trabalhadores mais velhos consigam manter os seus postos de trabalho ou, se os mantiverem, por imposição externa, que derive daí maior bem-estar.

Nesta área, como em todas as outras, o baixo estatuto sócio-económico das pessoas, torna as expectativas sobre os resultados do envelhecimento no futuro muito mais sombrias, ainda que a tendência seja, em nosso entender, globalmente positiva para todos. Quando comparámos os dados sobre as pessoas idosas, das nossas próprias investigações ao longo de quase 20 anos (e.g. Paúl, 1994; Paúl e Fonseca, 2005) são grandes as diferenças, nomeadamente nos níveis de iliteracia que caíram globalmente em muitos pontos percentuais.

Houve um aumento e uma melhoria notável na quantidade e qualidade de serviços sociais e de saúde para a população idosa, sendo que cada vez há menos pessoas autónomas a residir em lares ("a guardar vez" para futuras situações de necessidade), embora se observe um aumento de grandes dependentes, muitos dos quais sem respostas específicas e diferenciadas, como é o caso das pessoas com demência.

O apoio domiciliário era ainda uma "novidade" na década de 80, sendo que agora se alarga a cada vez maior número de utentes. As tendências de uma evolução positiva nas características dos idosos e nas respostas sociais é evidente e espera-se que continue.

No futuro, haverá mais idosos, sobretudo muito idosos que serão mais educados, e exigentes, constituindo um desafio aos profissionais que trabalham nesta área que têm que planear serviços para pessoas que não dispensarão as tecnologias para o seu bem-estar, que tolerarão cada vez menos respostas massificadas às suas necessidades e que, quando doentes, exigirão recursos especializados de apoio, simultaneamente sofisticados e humanizados, colocando novos dilemas éticos e fazendo apelo a boas praticas profissionais. Se nos encontrarmos no futuro, avaliaremos então a nossa capacidade de fazer mais e melhor hoje para aumentar a qualidade de vida ao longo do processo de envelhecimento.

BIBLIOGRAFIA:
Fries, J. (1980). Aging natural death, and compression of morbidity. New England Journal of Medicine, 303, 130-135.
Henretta, J. (2001). Work and Retirement. In Binstock, R. e George, L. (Eds) Handbook of Aging and the Social Sciences, San Diego: Academic Press.
Kirkwood, T. (1999). Time of our lives. The science of human aging. New York: Oxford University Press.
Kramer, M. (1980) The rising pandemic of mental disorders and associated chronic diseases and disabilities. Acta Psychiatrica Scandinavia, 62, 282-297.
Paúl, C. (1994). Panorama demográfico dos idosos em Portugal, Geriatria, 70 (VII), 21-26.
Paúl, C. e Fonseca, AM. (Eds) 2005, Envelhecer em Portugal. Lisboa: Climepsi.
WHO (2002): Active Ageing: A policy framework.
Geneva: Noncomrnunicable disease prevention and health promotion, aging and life course.

Autora: Constança Paul, UNIFAI, ICBAS-UP

Fonte: Revista Pretextos n.º 20, Edição do Instituto da Segurança Social, I.P., Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social

 

 
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