ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL (AVC)
 

O que é um AVC?
 

A designação “acidente vascular cerebral” (AVC) engloba um conjunto de doenças que decorrem da dificuldade de fornecimento de sangue e seus constituintes a uma determinada área do Sistema Nervoso Central (Cérebro e Espinal Medula), originando o sofrimento ou morte dessa área e, consequentemente, a perda ou diminuição das respectivas funções cerebrais (défice neurológico).
Alguns estudos apontam para uma incidência de AVC entre 1 a 2 por 1000 habitantes por ano, mas os números referentes a Portugal não são perfeitamente conhecidos. As taxas de mortalidade têm vindo a decrescer (redução de 25,1% na década de 90) mas mantêm-se muito elevadas (mortalidade hospitalar 17 a 30%). Entre nós, a doença cérebrovascular é a 3ª causa de anos potenciais de vida perdidos.
Anualmente 750 000 norte-americanos sofrem de AVC e 150 000 morrem em consequência directa do episódio de doença.
As sequelas são muito frequentes e um estudo efectuado pela Direcção Geral da Saúde em 1996 apurou que 13,8% dos doentes apresentavam incapacidade considerada grave, 15,0% ligeira e 59,3% estavam independentes.
Frequentemente, a doença inicia-se de modo súbito, com aparecimento de um défice neurológico, de intensidade máxima no seu início, que dura mais de 24horas.
Existem dois tipos de AVC:
AVC isquémico – quando não há passagem de sangue para determinada área cerebral, devido à obstrução de uma artéria que irriga o cérebro ou na sequência de uma redução do fluxo sanguíneo;
AVC hemorrágico – Contabiliza 20% dos acidentes e acontece quando uma artéria que irriga o cérebro rompe, extravasando sangue que inunda as meninges ou os tecidos nervosos, livremente ou formando um hematoma, podendo originar um aumento da pressão dentro do crânio (que está limitado por uma estrutura óssea não distensível).



O que são os factores de risco para AVC?
 


Factores de risco são todos aqueles que, herdados ou ambientais, podem facilitar o aparecimento de AVC.
Os factores de risco podem ser não modificáveis, isto é, não podemos interferir na sua presença ou evolução:
. Idade – a probabilidade de ter AVC aumenta com a idade
. Sexo – mais frequente no sexo masculino, e mulheres pós-menopausa
. Etnia – mais frequente na etnia negra

Os factores de risco podem ser modificáveis, isto é, podemos controlá-los, quer evitando a sua presença ou a sua intensidade:
. Hipertensão arterial
. Diabetes mellitus
. Tabagismo
. Alcoolismo
. Hiperlipidémia (colesterol e/ou triglicéridos elevados)
. Doença cardíaca e vascular
. Doenças que aceleram ou intensificam a coagulação
. Contraceptivos hormonais (pílula)
. Inactividade física


Quais os sintomas comuns num AVC?
 


O AVC manifesta-se de modo diferente em cada doente, pois depende, entre outros, da área do cérebro atingida, da extensão da mesma, do tipo (Isquémico ou Hemorrágico), das doenças associadas e da idade do doente.
A característica principal é a rapidez com que surgem as alterações: de segundos a horas (de forma súbita ou rapidamente progressiva).
Os sintomas mais comuns são:
. Fraqueza, ou dificuldade do movimento de um membro ou de um lado do corpo;
. Dormência de um lado do corpo (mão, braço, pé, face);
. Alterações na linguagem e fala - não se conseguir expressar ou entender o que lhe é dito; alguns doentes apresentam fala curta e com esforço, ou frases longas, fluentes, fazendo pouco sentido, grande dificuldade para compreensão da linguagem;
. Perda de visão total ou parcial (névoa, nuvem, cegueira) de um olho, ou dos olhos;
. Visão dupla;
. Vertigens e perda da coordenação dos movimentos;
.Dor de cabeça súbita sem causa aparente, com intolerância à luz, seguida de vómitos, sonolência ou coma;
. Perda de memória, confusão mental e dificuldade para executar tarefas habituais (de início rápido);
. Perda do estado de consciência.


Como se confirma a presença de um AVC?
 


O diagnóstico do AVC é obtido através da história do doente e da sua observação, que indicam a possibilidade dos sintomas serem causados por uma doença vascular cerebral.
O início súbito dos sintomas referidos anteriormente deve sugerir, em qualquer idade, uma doença ao nível dos vasos do cérebro, mesmo que não tenha factores de risco associados.
O diagnóstico inclui análises ao sangue e estudos de imagem cerebral que confirmam o AVC, como a Tomografia Axial Computorizada crânio-encefálica (TAC crânio-encefálica).
Podem ser feitos outros estudos para esclarecer a origem e o tipo de AVC, como: Ressonância Magnética Nuclear encefálica (RMN encefálica), Ultrassonografia das artérias carótidas e vertebrais, Angiografia Cerebral e Ecocardiografia.


Como se trata um AVC?
 


O AVC em evolução constitui uma emergência, devendo ser tratado no hospital o mais rapidamente possível.
Uma vez definido o diagnóstico clínico de AVC, há um conjunto de passos de avaliação e tratamento do doente.
Inicialmente deve diferenciar-se entre AVC isquémico ou AVC hemorrágico, pois as abordagens são diversas.
O tratamento inclui a identificação e controlo dos factores de risco, o uso em determinados casos (e o mais precocemente possível) de terapêutica antitrombótica, tratamento que impede a coagulação do sangue, sendo comum a prescrição de medicamentos que contrariam a agregação plaquetária (Aspirina, Ticlopidina , Copidogrel, entre outros) e que evitam a coagulação sanguínea (Varfarina e Acenocumarol). Por vezes a cirurgia é empregue para retirar coágulos do interior das artérias carótidas (exp.: endarterectomia) em alguns doentes. As intervenções endovasculares (angioplastia e colocação de stents (condutos artificiais que permitem permeabilizar os vasos arteriais) têm ganho protagonismo crescente na terapêutica e na prevenção deste tipo de doença vascular.
A avaliação e o acompanhamento neurológico regular fazem parte do seguimento, assim como o controlo da hipertensão arterial, da diabetes mellitus, do nível de lípidos (colesterol, triglicéridos), a cessação de consumo de tabaco e a verificação do uso de medicamentos prescritos à data de alta.
Após a alta hospitalar, o tratamento continua. O médico responsável irá prescrever os medicamentos necessários, assim como indicará todas as orientações necessárias.


Que reabilitação do doente afectado pelo AVC?
 


A reabilitação engloba um conjunto de acções com o objectivo de restabelecer, quando possível, uma função perdida pelo paciente temporária ou permanentemente, sendo realizada por uma equipa multidisciplinar e coordenada preferencialmente pelo médico especialista em Medicina Física e Reabilitação.

Os objectivos da reabilitação são:
. Recuperar ao máximo as funções – motoras, sensitivas, sensoriais, linguagem - afectadas pelo AVC;
. Evitar complicações como deformação dos membros e articulações que estão paralisados, prevenir o aparecimento de dores difusas pelo corpo, de doenças pulmonares, de tromboses venosas dos membros e escaras, que podem ser evitadas através da movimentação activa e passiva com exercícios correctos;
. Devolver o doente ao convívio familiar, social e laboral, oferecendo-lhe a melhor qualidade de vida possível.


Qual o prognóstico de um AVC?
 


Dependendo do tipo de AVC, do doente, factores de risco e área do cérebro que sofreu lesão, o prognóstico é diferente. Contudo o AVC é uma doença grave que está associada a uma elevada taxa de mortalidade e morbilidade, isto é, o doente que sobrevive pode experimentar alterações profundas no seu dia a dia. O AVC hemorrágico está frequentemente associado a uma maior taxa de mortalidade e morbilidade.
De entre as consequências previsíveis há que salientar a depressão (40-50% dos doentes sobreviventes a um AVC), de intensidade importante, desenvolvida essencialmente no primeiro ano após o acidente. Para além do emprego de antidepressivos (o médico deverá acautelar a ocorrência de efeitos acessórios), a reabilitação e, particularmente, a terapia ocupacional têm um papel fundamental. O sucesso do controlo de uma depressão favorece a boa recuperação das funções orgânicas afectadas.


Autores: Dr. João Sá (médico) e Dr. Luís Cavadas (médico)


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