INSUFICIÊNCIA CARDÍACA (ICC)
 

O que é?

O coração é o órgão central do sistema circulatório, sendo responsável pelo fornecimento de sangue a todos os tecidos do organismo. Quando, por qualquer motivo, ele não consegue bombear sangue suficiente para as necessidades dos outros órgãos diz-se que existe Insuficiência Cardíaca.
Esta situação pode ser também designada por Insuficiência Cardíaca Congestiva (ICC), falência ventricular esquerda ou capacidade cardíaca diminuída.


A ICC é uma doença rara?

Não. É uma situação muito frequente nos países ocidentais. Estima-se que em Portugal cerca de 4,36 % da população com mais de 25 anos sofra desta patologia, sendo que grande parte destes doentes têm mais de 65 anos de idade.


Quais são as causas de ICC?

Por si só a ICC não é considerada uma doença. Ela representa, habitualmente, a consequência final de outras patologias que podem lesar o coração, como por exemplo:
- Doença coronária – estreitamento anormal dos vasos que irrigam o coração.
- Ataques cardíacos ou Enfarte Agudo do Miocárdio.
- Diabetes mellitus.
- Tensão alta ou Hipertensão Arterial.
- Doenças das válvulas cardíacas (por Febre Reumática ou outras causas).
- Miocardiopatia – doenças que afectam principalmente o próprio músculo cardíaco.
- Endocardies / Miocardites – infecções das válvulas cardíacas ou mesmo do músculo cardíaco.
- Cardiopatias Congénitas – Defeitos cardíacos presentes logo à nascença
- Doenças pulmonares graves – Bronquite Crónica, Hipertensão Pulmonar ou Apneia Obstrutiva do Sono.
- Pericardites – Doenças que afectam a membrana que envolve o coração (pericárdio).


Que sintomas é que a ICC provoca?

Nas fases iniciais a ICC pode não dar qualquer sintoma, só sendo possível o seu diagnóstico com recurso a exames médicos apropriados.
No entanto, à medida que o coração vai bombeando cada vez menos sangue, este vai-se congestionando nalguns tecidos e órgãos como os pulmões, o fígado ou as veias das pernas, ou irrigando insuficientemente outros como o cérebro e os músculos, dando então origem ao início da sintomatologia.

Os sintomas mais frequentes são:
- Falta de ar (Dispneia) – É dos primeiros sintomas a aparecer. O doente tem tendência a ficar ofegante e a cansar-se mais facilmente do que anteriormente e apenas por fazer actividades que antes fazia com mais facilidade (como por exemplo, subir escadas). Muitas vezes os doentes podem notar que ficam com falta de ar quando se deitam e que melhoram ao usar 2 ou 3 almofadas.
- Cansaço Fácil – Há também uma menor tolerância ao exercício e a sensação de os músculos estarem a ficar cada vez mais fracos.
- Pernas inchadas (Edema) – Embora possa também existir noutro tipo de doenças (como por exemplo as varizes), é um sinal muito frequente na ICC. É geralmente mais evidente nos tornozelos mas pode notar-se também noutras partes do corpo.
- Aumento súbito de peso – Deve-se à retenção de líquidos pelo organismo
- Veias do pescoço inchadas
- Desconforto abdominal com dor ou náuseas
- Palpitações – batimentos cardíacos mais acelerados ou mais fortes
- Confusão mental


Como se diagnostica a ICC?

A ICC é uma condição complexa em que pode não haver qualquer sintoma. Quando existem podem ser semelhantes aos de outras doenças. Por isso, o seu médico é a pessoa mais indicada para lhe dizer se tem ou não ICC. Para além do exame físico, o médico pode precisar de alguns exames complementares de diagnóstico como:
- Análises – para ver se há outras doenças que estejam a provocar ou a agravar a ICC, como por exemplo a anemia ou alterações da tiróide;
- Electrocardiograma – pode detectar arritmias, enfartes ou aumento anormal do tamanho do coração;
- Ecocardiograma – permite visualizar o coração através de um aparelho de ecografia sendo o exame mais importante para diagnosticar a ICC;
- Prova de esforço – é semelhante ao electrocardiograma mas é feito enquanto o doente faz exercício físico numa passadeira rolante ou numa bicicleta sem rodas. Permite avaliar o desempenho do coração durante ou após esforços físicos;
- Cintigrafia cardíaca – exame mais complexo e caro que permite identificar áreas do coração que tenham ficado danificadas após um enfarte ou medir melhor a capacidade do coração em bombear o sangue.


A ICC tem cura?

Embora não seja frequente, a ICC pode ser revertida logo que a doença que a esteja a provocar seja tratada. Para a maioria dos doentes, no entanto, a ICC é uma situação crónica e progressiva que pode ser tratada, mas raramente é curada.
A maioria dos tratamentos que existe melhora o desempenho do coração e atrasa o aparecimento dos sintomas (ou melhora os que já existem) aumentando, por isso, a qualidade e o tempo de vida dos pacientes.


O que é que posso fazer para melhorar a ICC?

Independentemente da gravidade ou causa, a maioria dos doentes com ICC beneficiam de mudanças no seu estilo de vida:
- Mudança no tipo de alimentação;
- Diminuição do consumo de sal;
- Alcance e manutenção do peso ideal;
- Diminuição do consumo de sal;
- Parar de fumar;
- Aprendizagem e prática de técnicas para lidar com o stress;
- Períodos diários de repouso regular;
- Exercício físico adaptado. IMPORTANTE: Apenas após a aprovação e programação pelo médico;
- Evitar temperaturas extremas;
- Vacinação anual contra a gripe;
- Visitas regulares ao médico assistente.

Que tipo de dieta é apropriado para a ICC?

Para o surgimento da ICC existem factores de risco que os doentes não podem controlar (como as doenças das válvulas ou doenças congénitas), mas há outros factores que podem depender do comportamento do doente (como a tensão alta, a diabetes, o colesterol alto, o tabagismo ou a obesidade).
A dieta ideal é aquela que permite alterar este segundo grupo de factores de risco e geralmente inclui um regime alimentar baseada no consumo de fruta, vegetais, legumes como o feijão, cereais integrais, lacticínios magros e carnes magras.
Existem muitos livros e sites na Internet que dão receitas e conselhos práticos para a dieta de um doente com ICC.
 


O álcool tem alguma relação com a ICC?

O álcool em excesso pode ter muitos efeitos nefastos para o coração, incluindo o aumento da tensão arterial e lesão do próprio músculo cardíaco. Todavia, pensa-se que o álcool em pequenas quantidades (não mais que uma bebida por dia para as mulheres e não mais que duas para os homens) pode eventualmente reduzir o risco de doenças do coração. Convém, porém, salientar que pessoas com história de alcoolismo na família, grávidas e doentes sob certo tipo de medicação devem evitar absolutamente o álcool, pelo que é prudente aconselhar-se com o seu médico antes de consumir.


Que medicamentos existem para a ICC?

Existem essencialmente 5 tipos diferentes de fármacos para a ICC e que o seu médico pode prescrever em doses e combinações que variam de doente para doente:
- Os inibidores da enzima de conversão do angiotensinogénio (IECAs)
- Os - bloqueadores (Beta-bloqueadores)
- Os digitálicos
- Os diuréticos
- Os vasodilatadores
Os IECAs e os vasodilatadores dilatam os vasos fazendo com que o trabalho do coração se torne mais facilitado. Os - Bloqueadores atrasam a progressão da deterioração do funcionamento do coração. Os digitálicos aumentam a capacidade do coração para bombear o sangue e os diuréticos ajudam o organismo a eliminar o excesso de fluidos acumulados e a diminuir assim os edemas.

O que é o Programa de Reabilitação Cardíaca?

É um modelo de prestação de cuidados de saúde que engloba a educação do paciente, mudanças no estilo de vida e treino físico supervisionados por um profissional de saúde. Um programa de exercício físico é habitualmente incluído mas obedece a planos que variam de doente para doente. Os exercícios podem ter de ser muito vigiados recorrendo a monitorização com electrocardiograma ou podem ser mais livres com monitorização apenas ocasional, dependendo da gravidade de cada caso e de eventuais doenças concomitantes.
Combinando todas as vertentes da reabilitação em doentes apropriados, esta permite melhorar a capacidade física e qualidade de vida, reduzir os factores de risco e ajudar os doentes a adquirir uma sensação de bem-estar e optimismo.


Que tratamentos adicionais podem ter que fazer os doentes com ICC?

Em alguns casos é conveniente tratar uma doença subjacente que esteja a provocar ou a agravar a ICC. Assim, podem ser necessários tratamentos mais complexos e invasivos como cateterismos com angioplastias e colocação de stents, cirurgias para Bypass coronário, colocação de pacemaker, tratamento para ressincronização cardíaca, colocação de desfibrilhadores implantáveis, cirurgias a aneurismas, uso de aparelhos de assistência ventricular ou mesmo transplante cardíaco.
 

Quem precisa de transplantes cardíacos?

A maioria dos doentes com ICC não tem actualmente indicação para transplante cardíaco. Este procedimento está reservado a pacientes com ICC muito grave, de tal modo que a doença já não responda ao tratamento convencional. Estes doentes geralmente dependem de terapêutica endovenosa contínua.
O transplante cardíaco, pela escassez de órgãos disponíveis, complexidade da intervenção e complicações associadas, está reservado para doentes mais jovens e sem outras doenças concomitantes.


Qual é o prognóstico da ICC?

Muito pacientes que são hospitalizados por ICC, podem voltar, após algumas semanas ou meses (dependendo da gravidade) para uma versão modificada da sua vida quotidiana.
No entanto, de acordo com alguns estudos, cerca de 80 % dos homens e 70 % das mulheres com o diagnóstico de ICC podem vir a morrer ao fim de 8 anos. A probabilidade de sobrevivência depende das causas e gravidade da ICC, da mudança ou não no estilo de vida, no cumprimento do tratamento aconselhado e na resposta individual a esse mesmo tratamento.
Quanto mais cedo for feito o diagnóstico e o início das medidas terapêuticas melhores são as perspectivas de vida com qualidade.

Referências

• Ceia F., Fonseca C. Epidemiology of heart failure in mainland Portugal: new data from the EPICA study, Rev Port Cardiol. 2004 Sep; 23 Suppl 3: III 15-22
• Fonseca C. Prevalence of heart failure in Portugal, Rev Port Cardiol. 1999 Dec; 18(12): 1151-5
• ACC/AHA 2005 Guideline Update for the Diagnosis and Management of Chronic Heart Failure in the Adult, Circulation. 2005; 112
• Kasper, Hauser, Braunwald. Harrison Principles of Internal Medicine, Vol II, 16ª Ed, 2005, 1367-1378
• Congestive Heart Failure and DVT Blood Clots, http://heart.healthcentersonline.com
• Congestive Heart Failure, http://americanheart.org
• Heart Healthy Diet, http://heart.healthcentersonline.com
• Cardiac Rehabilitation, http://americanheart.org
• Selection and Treatment of Candidates for Heart Transplantation, http://americanheart.org

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