A FAMÍLIA E OS CUIDADORES FAMILIARES
A Família continua a constituir a base da sociedade e o grande suporte no apoio ao envelhecimento e aos diferentes tipos de dependência em Portugal, os quais atravessam todos os níveis etários. O sentimento de obrigação pessoal/familiar e a solidariedade familiar/conjugal estão subjacentes à determinação dos cuidadores familiares ou informais, em considerar a missão de cuidar uma obrigação e um dever. Cada vez mais se deve tomar consciência dessa realidade, reconhecer-lhe a sua dignidade, e encarar este trabalho “invisível” e maioritariamente voluntário, como um contributo inestimável com vista a uma sociedade melhor, mais solidária e mais feliz.
A evolução da composição da Família, em Portugal, tem vindo a evidenciar, como noutros países da Europa Comunitária uma situação do envelhecimento demográfico da população portuguesa:
a) Em mais de 30% dos agregados familiares portugueses vive pelo menos um idoso com mais de 65 anos;
b) O número de pessoas com mais de 65 anos atinge 1 548 000 (Censo 2001), prevendo-se que ultrapasse em 2020 as 2000 000 pessoas;
c) Já em 1991, viviam sós 240 000 pessoas, representando 3,5% da população portuguesa; a distribuição difere de distrito para distrito, sendo mais visível o isolamento dos maiores de 65 anos nos concelhos das capitais de distrito, particularmente em Lisboa;
d) No concelho de Lisboa, a população com mais de 65 anos representa cerca de 24% da população total, rondando os 134 000 idosos; destes, 39% vivem sós, num total da ordem das 52 780 pessoas;
e) De entre os idosos vivendo sós, verifica-se um peso muito significativo de Mulheres (78% Mulheres, 28% Homens), traduzindo uma esperança de vida mais elevada, e um mundo idoso predominantemente feminino;
f) Uma redução do número de pessoas por agregado familiar, evidenciando famílias cada vez mais pequenas.
Com as famílias a decrescer em dimensão e em estabilidade, com cada vez mais mulheres a desenvolver actividade profissional fora de casa, com as casas cada vez mais pequenas e mais distantes, quer do local de trabalho, quer do local de residências dos familiares mais velhos, e com um número crescente de pessoas mais velhas vivendo sós, torna-se indispensável equacionar a organização e a prestação de cuidados a um grupo etário que necessariamente vai ter de defrontar situações de dependência acrescidas, com necessidade de mais apoios, tanto apoio pessoal como apoio em saúde.
E já em 2002 a Organização Mundial de Saúde estimava que “…nos próximos 20 anos aumentarão em 300% as necessidades em cuidados de saúde da população idosa, paralelamente a um aumento acentuado da prevalência de doenças não transmissíveis de evolução prolongada; surgirão assim novas necessidades de saúde e de apoio social, principalmente de longa duração; e estas mudanças reclamam das políticas de saúde e solidariedade, a adopção de uma abordagem que privilegie a satisfação das crescentes carências nesta matéria.”
Em todo o mundo este é um tema de preocupação e de estudo.
Neste contexto, há que pensar e preparar com antecedência, a nível dos próprios idosos e dependentes e suas Famílias, formas das pessoas se organizarem e reorganizarem, quer em termos de apoio com pessoal interno ou externo, quer a nível de espaço e local de domicilio, de forma a conseguirem permanecer no domicílio escolhido durante o máximo de tempo possível.
A permanência de pessoas dependentes nos domicílios escolhidos, com ou sem apoio domiciliário dedicado, obriga naturalmente a um esforço de reorganização da Família, amigos e vizinhos; e também a que exista alguém que assuma a figura de “cuidador principal”, assegurando a coordenação da organização necessária.
Cada vez mais se vai tomando consciência da complexidade do relacionamento “cuidador informal - pessoa dependente”, e dos efeitos positivos e negativos sobre a célula familiar, restrita e alargada. A situação em si é naturalmente complexa para ambas as partes, desencadeando um conjunto de sentimentos e de emoções que, muitas vezes, pode dificultar a prestação dos cuidados. Por outro lado - e para o bem-estar de ambas as partes – é fundamental que se proceda de uma forma tecnicamente adequada, que permita:
- A quem presta cuidados, manter a sua saúde física e mental e assim conseguir contribuir para o bem-estar de terceiros, sem pôr em risco a sua própria situação pessoal;
- A quem recebe os cuidados, sentir-se bem, confortável e o mais autónomo e independente possível. Ninguém gosta de depender de outras pessoas no seu dia-a-dia, e está provado que as pessoas mais autónomas se sentem mais felizes, têm menos doenças e vivem mais tempo.
Os filmes da ADVITA sob o tema “Cuidar e Ajudar a Cuidar” visam exactamente responder a esta temática.
Não é demais salientar a importância do apoio que é necessário assegurar aos prestadores de cuidados informais em matéria de apoio domiciliário, ajudas técnicas, apoio médico e de enfermagem, conforto e apoio psicológico, com vista a auxiliar o prestador de cuidados a suportar a sobrecarga que recai sobre si, quando assume a responsabilidade dos cuidados.
Quando a situação de dependência se agrava, e a sobrecarga de cuidados aumenta, a permanência no domicílio escolhido pode tornar-se excessivamente difícil, pesada e onerosa, colocando-se a situação da necessidade de internamento, por curtos períodos de tempo (para convalescença, férias, descanso da família) ou para internamentos de maior duração.
São decisões que devem ser preparadas com cuidado e atenção, evitando o sentimento muito comum de “sentimento de culpa”, e em colaboração e diálogo com os próprios, quando possível, procurando transmitir de forma positiva as razões da decisão de mudança.











